O We Blog You visitou a Ana Pina e o atelier bonito onde passa os dias



 
Não conhecíamos a Ana pessoalmente, mas já a acompanhamos pela internet há algum tempo. Faz joalharia, e este é um mundo desconhecido para a maior parte de nós. Sabemos e gostamos de usar jóias mas sabemos muito pouco de tudo o que envolve o processo de criação.
Depois de nos termos cruzado com ela na rua, e de o "olá" poder ter sido feito sem um monitor entre nós, ficou imediatamente na nossa lista de pessoas que queríamos mesmo muito visitar. A Ana aceitou o convite e deixou-nos entrar no seu espaço de trabalho, que fica em casa, e trazer-vos imagens daquilo que a rodeia todos os dias. Como vai sendo costume as imagens seguem em baixo, e quando elas chegam ao fim temos as palavras da Ana.
 




















O teu espaço de trabalho divide-se em várias zonas distintas onde fazes coisas diferentes.
Fala-nos delas.
Sim, considero que se divide em três zonas e provavelmente uma série de áreas cinzentas que
se intersectam no que toca à arrumação. Estas zonas estão directamente relacionadas com as
diferentes actividades a que me dedico e têm vindo a transformar-se de acordo com a evolução
do meu próprio trabalho criativo. Quando organizei o atelier pela primeira vez precisava apenas
de duas grandes mesas brancas onde planeava desenhar… depois, com a aprendizagem do
maravilhoso mundo da joalharia a parafernália de ferramentas começou a invadir gradualmente
o espaço.

Neste momento a parede direita do atelier é dedicada à banca de joalharia e a da esquerda
tem as duas grandes mesas iniciais, que afinal já não são assim tão brancas… uma delas está
ocupada com o computador, a outra é onde vou preparando encomendas, espalhando trabalho
em progresso ou tratando dos trabalhos de ilustração. Desenhar é uma coisa que na maior
parte das vezes faço no chão, espalhando papeis, lápis, marcadores e pincéis por todo o lado.

Como começa o teu dia?
Confesso que a manhã não é a minha parte do dia favorita… ainda assim, tento começar o dia
por volta das 8h30-9h: levanto-me, visto-me e preparo o pequeno-almoço. Geralmente como
uma torrada e um cappuccino enquanto leio um pouco. Depois deste pequeno prazer matinal,
geralmente a primeira coisa que faço é ligar o computador.


Adaptar o teu atelier, inicialmente criado para o desenho, para ser também uma pequena
oficina de joalharia foi muito complicado? Que materiais são completamente indispensáveis
para produzires as tuas peças?
Não foi fácil, porque o espaço não é grande… mas acho que na minha cabeça de arquitecta
cada reorganização acabava por ser um novo e interessante desafio.

Ao contrário do desenho, a joalharia é uma área que exige algum espaço e equipamento muito
específico. Tive a preocupação de colocar a banca de joalharia perto da janela, por causa da
ventilação e luz natural e todo o resto gira à sua volta. A banca tem que estar preparada para
nela poder serrar, limar e lixar as peças… para as soldar não pode faltar o maçarico e ainda o
motor de suspensão para poder perfurar e dar alguns acabamentos.

Tenho ainda um polidor e um canto reservado ao branqueamento. Na parede e nos móveis,
distribuídos por prateleiras e caixas, estão ainda uma série de ferramentas e materiais:
martelos, embutidores, adrastas, lixas, limas e pinças, brocas e fresas, alicates e escovas,
restos de metal… e muito, muito mais.


Vemos caixas e caixinhas, aqui nada parece ter acontecido por acaso e foi impossível não
ter havido uma preocupação em criar um espaço funcional e confortável. A organização, é um
hábito ou uma necessidade?
Acaba por ser uma mistura das duas coisas: se por um lado sou uma pessoa organizada e
arrumada por natureza, por outro esta é a melhor forma de optimizar o espaço reduzido e o
tempo que passo à procura de algo no meio de tanta diversidade de coisas.


Começaste uma nova actividade, a joalharia, já numa nova fase da tua vida e a trabalhar em
casa, fala-nos da maior vantagem e da maior desvantagem desta tua escolha.
Quando, há cerca de dois anos, decidi sair do gabinete de arquitectura onde trabalhava achei
que iria ter todo o tempo do mundo por minha conta, mas a verdade é que podermos decidir o
que fazer com todo o tempo à nossa disposição acaba por ser o melhor e o pior desta condição.

Durante quase 1 ano e meio estive ocupada durante as manhãs a tirar o curso de joalharia,
mas desde Setembro que trabalho a partir da minha oficina em casa e o dia que promete
ser infinito de manhã acaba sempre demasiado cedo. O mais difícil é sentir o peso da
responsabilidade quando sei que tudo depende de mim, sentir-me motivada estando sozinha
em casa, estabelecer prioridades, distinguir a vida pessoal da profissional, não me sentir
culpada quando paro de trabalhar no final do dia, se saio para um café ou para ir ao ginásio…
Por outro lado essa mesma liberdade é também a maior vantagem: poder fazer o meu horário,
trabalhar ao fim-de-semana mas tirar um dia durante a semana para fazer o que quiser, ouvir à
vontade a música que me apetece, sentir que, por muito que trabalhe tanto como antes, agora
o esforço é recompensado por cada pequeno sucesso que sinto como meu.


Inspiração para jóias, onde a vais buscar?
Sou capaz de passar horas na internet a percorrer páginas de artistas e joalheiros que me
inspiram e tenho as paredes do atelier cheias de postais de viagens, imagens de obras que
admiro, frases inspiradoras, ramos e folhas secas que vou recolhendo…

Posso ir buscar inspiração à minha cabeça ou àquilo que me rodeia, mas mesmo as linhas
mais orgânicas inspiradas pela natureza, como é o caso da Flora Collection, acabam estilizadas
por um traço mais abstracto e consciente. É inevitável notar a influência da minha formação
em arquitectura, não só na geometria de algumas composições, mas também na consciência
do acto de projectar, de estruturar o acto criativo através da repetição do esquiço ou do
estabelecimento de relações métricas.

Dificilmente penso numa peça isolada e quando imagino a primeira de uma possível futura
colecção é raro ficar por aí: automaticamente visualizo variantes, combinações e uma evolução
da forma inicial, tornando-a quer mais simples quer mais complexa… e o pior é que geralmente
as ideias voam muito mais depressa do que as mãos!





Costumamos dizer que se vão os anéis mas ficam os dedos, no teu caso "vão-se" os
dedinhos a trabalhar e nascem os anéis. Qual é a tarefa mais difícil, de todo o processo, ao
criar uma jóia?
É bem verdade. Poucos terão noção, tal como eu não tinha, do processo complexo por trás da
criação de uma jóia de raíz. Além se ser composto por várias fases distintas, desde a fundição
até ao acabamento, é um trabalho exigente a nível físico. Depois de horas a trabalhar na
banca fico com as costas doridas, as mãos e unhas numa miséria… Confesso que este trabalho
manual me agrada, porque é gratificante a sensação de ver uma obra nascer das nossas
próprias mãos, mas a repetição cansa-me. Gosto de imaginar e planear a peça, gosto de a criar
e vê-la atingir o resultado desejado, mas quando o trabalho puramente físico se sobrepõe ao
acto criativo a minha obstinação começa a ceder. Diria que a fase final, de limar, lixar e dar
acabamento à peça é para mim a mais difícil… talvez devido ao tempo que na maior parte das
vezes demora – suponho que será porque me atrai mais o acto criativo espontâneo.


A tua formação nesta área é recente, as tuas colecções também, e no entanto já chegaste a
muita gente e quando falamos de ti é difícil haver alguém que não saiba quem és. Qual é a tua
maior preocupação nesta tarefa de comunicar e mostrar ao mundo o teu trabalho?
A sério? É verdade que o meu trabalho tem recebido alguma atenção ultimamente, mas
confesso que não tinha essa percepção – fico contente!

Sempre fui uma pessoa introvertida, sem grande jeito ou vontade de comunicar com o público,
por isso o acto de mostrar ao mundo o meu trabalho foi um esforço que tive que aprender a
fazer. Não é possível fazê-lo sem nos expormos e se no início, graças ao mundo da internet,
é possível escondermo-nos atrás de um computador, com o passar do tempo temos que sair
da nossa zona de conforto e substituir os comentários dos amigos pelos olhares de estranhos
– é graças ao seu reconhecimento que nos sentimos realizados e às suas críticas que nos
obrigamos a evoluir ou a reforçarmos a nossa posição.

A minha maior preocupação neste processo acaba por ser a criação de uma imagem coerente
e profissional que leve o que faço ao maior número de pessoas, sem cair na despersonalização
do meu trabalho, que acaba por ser uma extensão de mim mesma – é necessariamente um
trabalho constante de aperfeiçoamento e adaptação.


Parece que as coisas foram acontecendo ao sabor do vento, que depois da tua saída do
atelier de arquitectura não foram precisos grandes planos para encontrares o caminho que te
trouxe até aqui. Até onde esperas que o vento te leve?
Aquele que é provavelmente um dos meus maiores defeitos foi também o que me fez não me
conformar e chegar até aqui… sou naturalmente insatisfeita, mas ao mesmo tempo demasiado
responsável e céptica. Adiei durante cerca de um ano a saída do gabinete de arquitectura e tive
que trocar a falsa sensação de segurança em que me encontrava antes pela insegura crença de
que é possível concretizar um sonho.

Há cinco anos atrás, por exemplo, nunca me imaginaria hoje aqui, por isso tento não ter medo
da mudança, não me pressionar demasiado e não traçar um roteiro rígido para o futuro… é
inevitável fazer planos, alguns deles mais irrealistas do que concretizáveis, mas também são
eles que nos fazem continuar a acreditar no futuro e a ter força para acordar de manhã, não é?

Espero no futuro ver crescer a minha marca, levar as minhas criações a outros pontos de venda
e outros países e poder, quem sabe, finalmente viver da minha arte.


No meio de todas as coisas que foste fazendo ao longo dos últimos anos, qual é o papel
que o blog ocupa na tua vida?
Sempre gostei muito de escrever e no início o blog (que ainda não era este que mantenho
agora) acabou por ser um pretexto para recuperar um hábito perdido desde que deixara de
ter tempo para manter um diário. Ao mesmo tempo encarei-o como uma forma de mostrar ao
mundo o meu trabalho de uma forma relativamente anónima e foi através do mundo dos blogs
que descobri o trabalho de muitos outros artistas que admiro e me tornei amiga de alguns
deles.

Actualmente, ainda que seja inevitável usar o blog para divulgar o meu próprio trabalho,
acaba por ser um reflexo do que sou, do que me rodeia e daquilo que me inspira. Funciona
quase como uma publicação online em que tento abordar regularmente temas interessantes e
diferentes… que vai servindo de pretexto para partilhar fotografias que tiro nos meus passeios
pela cidade, documentar viagens e eventos ou partilhar o trabalho de outros artistas através
das entrevistas. Ainda que por algum motivo abandonasse o meu trabalho criativo, acredito
que manteria o blog, porque se transformou também numa fonte de realização pessoal e de
encontro com o resto do mundo que não me imagino a abandonar.


www.blog.anapina.com/
www.shop.anapina.com/

3 comentários:

  1. Adorei ler a entrevista! Já ''conhecia de vista'' na internet a Ana mas não sabia o início da sequela :p o trabalho dela é bastante criativo e fresco. Gostei bastante da vossa partilha.

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